Ediana, Brazilian
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I held your name inside my heart
But it got buried in my fear
It tore the wiring of my brain
I did my best to keep it clear


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   Poucos minutos antes de sair de casa eu já sei: esse dia vai ser sobre perseguir você. No caminho, dentro do ônibus e morrendo de medo a cada pessoa estranha que entra, temendo um assalto que jamais aconteceu, o dia vai ser sobre sentir medo. Chegando ao meu destino, entrando no elevador, olhando para mim mesma como se a pessoa que saiu de casa agora há pouco e essa aqui diante do espelho fossem duas pessoas totalmente distintas, me pergunto onde foi que eu errei e o motivo, Deus, de ter escolhido justo essa roupa. Olhando para as outras pessoas que vão descer três andares depois ou antes do meu, eu já sei que o dia vai ser sobre me sentir inadequada.

   Vou procurar saber da vida de quem não gosto e sentir vontade de abraçar essas pessoas, em mais um dos rodopios imbecis que o meu coração mais imbecil ainda me proporciona: esse dia vai ser sobre gostar de verdade de quem eu teoricamente detesto. Vou tecer um plano de ação para tentar consertar a porcaria que eu fiz, já me divertindo em saber que não vai dar certo. Sendo assim, acabamos de decidir que esse dia vai ser sobre agir de modo calculado e perder a mão quando começa a ficar divertido.

   Tendo um pouco de fé no que dizem e levando a sério demais os elogios recebidos com base em nada, esse dia vai ser sobre ter (achar que tenho) futuro. Definir metas. Elaborar listas. Estrear cadernos, destacar post-its. Esse dia, eu acho então, vai ser sobre começar de novo partindo de absolutamente nenhum motivo aparente para começar de novo (que merda é essa, começar de novo?).

   Investigando coisas ditas e principalmente silêncios. Perdendo o foco. Voltando. Perseguindo você, me perdendo de mim mesma. Fazendo as contas pra saber se me amam. Errando. Oscilando a todo momento: sobre o que será o dia de hoje? Chegando em casa exausta de ter começado tantos dias em um só e não ter terminado um deles sequer.

                                                             Tati Lopatiuk


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   Tenha sempre dois ou três refúgios, lugares dentro de você que te fazem bem quando tudo ao redor está mal. Vá pulando de refúgio em refúgio, correndo da decepção que o refúgio anterior te causou, quando acontecer. Pois vai acontecer. Vá andando em círculos, não importa, contanto que não deixe a tristeza te pegar. Se ela te pegar, não há refúgio que te proteja, então, corra. Vá pulando de refúgio em refúgio, seja rápida.

   Existem os filmes, as séries, as músicas, o trabalho, os estudos, os esportes, os círculos de amizade, o amor. Não há tempo para pensar em nada. Se quiser, é só ir mudando de rumo e orbitando pelos universos à sua disposição. Lembre-se de que refúgios são provisórios, não são fortalezas. Não existem fortalezas – e refúgios não vão durar por muito tempo. Então, ande rápido.

   Esse é o segredo de quem “nunca fica triste“: ter sempre para onde correr. Em um mundo desabando, tome a dianteira e pule do barco antes que ele afunde. Olhe para trás e procure os que ainda estão de pé. Alterne. Não se prenda a nada. Firme os pés na certeza de que nada é para sempre.

                                                                 Tati Lopatiuk

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   Se eu posso te dar um conselho, eis aqui: Não mendigue atenção de quem quer que seja. Não se esforce para compartilhar minutos com quem está mais interessado em coisas que não te incluem. Não prolongue a conversa apenas para ter o outro por perto, quando você perceber que precisa se esforçar bastante para que o monólogo vire um diálogo. Esqueça. Prefira a sua solidão genuína à pseudo presença de qualquer pessoa. Ainda digo mais: Perceba que existem pessoas que curtem dividir a atenção contigo sem que você precise desprender esforço algum. Aproveite o que te dão de livre e espontânea vontade. Dispense o que te dão por força do hábito ou por conveniência. Esqueça o que não querem te dar. Cada um dá o que pode.

                                                                    Mario Calfat Neto

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I am
What I want you to want
What I want you to feel
But it’s like no matter what I do
I can’t convince you
To just believe this is real
So I let go, watching you
Turn your back like you always do
Face away and pretend that I’m not
But I’ll be here
'Cause you're all that I've got

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   Uma sensação esquisita – e equivocada – de destacamento: eu não sou o meu corpo.
   Não sou os cachos do meu cabelo,  minhas olheiras e orelhas assimétricas. Não estou nos cheiros do meu corpo, ou no anasalado metálico da minha voz.
   A predileção do meu paladar por temperos fortes, meus fluidos, meus pelos, enxaquecas, cólicas e orgasmos são meros efeitos colaterais. As primeiras rugas no canto dos olhos (olhos que já precisam de óculos para enxergarem com nitidez) são meros sinais de desgaste.
   Os cabelos e as unhas que não param de crescer não me dizem respeito, assim como o joelho frágil, a sensibilidade na região do pescoço e as veias aparentes sobre a pele branca. Esse reflexo no espelho não é o meu.
   Sou tão somente a voz que se esconde dentro de uma máquina bioquímica que precisarei pilotar (com alguma sorte) pelas próximas décadas.

   E, no entanto, de vez em quando eu danço, e relembro. Quando músculos que sequer lembrava que tinha são distendidos e o suor escorre pela linha da coluna. Quando o ritmo sobe pelos pés e pernas, crava as unhas no quadril para tomar impulso e instalar-se na nuca. Quando a voz que insiste em comandar é calada pela a vontade de se fundir com a carne até então estrangeira, e torná-la meu terrítório – verdadeiramente habitá-la.
   Não sou bela quando danço, pois não há beleza nos meus gestos desajeitados e na falta de prática de estar no mundo. Mas estou ali, e estou inteira, como quase nunca consigo ser.

                                                            Gabriela Ventura


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   O mundo ficou diferente. O mundo já não era ali. Estava em outro lugar. É preciso entender que cada um verá coisas que ninguém mais poderá ver. E que nelas residem as suas razões. Cada um verá as suas miragens.

                                                       Nove Noites, Bernardo Carvalho


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Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

                                           Carlos Drummond de Andrade


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     Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: “Brother, essa Dilma é uma piranha”. Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior? 
     Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: “Essa eu comeria fácil” ou “Até que não é tão baranga assim”. O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores. 
     Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: “O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou.” Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas. 
     Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?
     Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa. 

                                                                    Gregorio Duvivier


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